PALAVRA SEMANAL 5
 
CAPÍTULO II - A PALAVRA ENCARNADA
“E O VERBO SE FEZ CARNE E HABITOU ENTRE NÓS” (Jo 1,14)
II.1 NA PLENITUDE DOS TEMPOS
“Quando porém chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher;” (Gl 4,4) Jesus Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, na unidade. Ele tem inteligência e vontade humana, perfeitamente concordantes e submetidas à sua inteligência e vontade divina, que tem em comum com o Pai e o Espírito Santo. A encarnação é portanto, o mistério da admirável união da natureza divina e da natureza humana na única pessoa do Verbo.
No quadro assim formado, a salvação se insere como produto da fidelidade e sabedoria de Deus, que cumpre suas promessas em Jesus, (cf. 2Cor 1,20) o qual entra na história como Filho de Deus e de Maria.
Vemos com isso, que o Verbo se fez carne para tornar-nos “participantes da natureza divina,” (2Pd 1,4) “pois esta é a razão pela qual o verbo se fez homem, e o filho de Deus, filho do homem: é para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina, se torne filho de Deus” (CCE 460).
Por sua vez, Maria aparece também no centro do plano de salvação. Por mera benevolência e gratuidade foi escolhida por Deus, para ser mãe do seu Filho e para tanto encheu-o de graça. (cf. Lc 1,28) Maria correspondeu fielmente ao dom de Deus, dizendo-se e fazendo-se a serva do Senhor, cf. Lc 1,38 tornando-se a Mãe de Deus, feito homem: Theotókos.
É da sua divina maternidade, que se deduz a prerrogativa de Imaculada Conceição , que significa que Maria, desde a sua concepção foi “por graça e privilégio singulares de Deus onipotente e em vista dos méritos de cristo,...preservada de toda mancha de culpa original.”(Dz 1641). Nela portanto, antes que a redenção se concretize historicamente, “se realizou a estupenda e total vitória do bem sobre o mal, do amor sobre o ódio, da graça sobre o pecado,” como nos diz padre Vieira: “... há dois modos de remir, ou de redenção, uma que tarda e remedeia o cativeiro, outra que se antecipa e preserva dele. A segunda, e tão provável que já se não pode afirmar em público o contrário, é que pela redenção que remedeia, remiu Cristo a todo gênero humano, e pela que se antecipa e preserva, remiu a sua mãe... e assim como Sansão se antecipa aos leões para salvar seus pais, Cristo se antecipa ao pecado para salvar sua mãe”. Outro privilégio de Maria, vinculado ao ser a Mãe do Verbo encarnado, é o fato de ter permanecido virgem por toda a vida. Verdade que, em conformidade com a Tradição, o papa Paulo V (07/08/1955) proclamou: “A bem aventurada virgem Maria..., guardou sempre íntegra a virgindade, antes do parto, no parto, e constantemente depois do parto” (Dz 993). E a virgindade física, é o sinal da sua total entrega de espírito a Deus, para o qual, em Jesus, toda a sua vida estava orientada.
Na encarnação portanto, a natureza humana de Jesus existe pela existência da segunda pessoa da SS. Trindade, e é o supremo modo de comunicação divina do homem. Não se trata de uma doação de semelhança de si (criação), nem de uma participação de sua felicidade (ordem da graça), mas da doação de uma de suas pessoas, de sorte a fazer com que determinada criatura tenha por “Eu” o Verbo de Deus.
Baseando-nos na Tradição e na Sagrada Escritura, podemos afirmar que há Encarnação por causa do pecado do homem (cf. 1Tm 1,15). É o que recitamos no credo: “por nós homens e para a nossa salvação, ... encarnou-se ...” (Dz 54). Assim, conhecemos a Encarnação em nexo direto com a redenção ( a obra salvífica de Cristo), embora seja lícito especular, sobre o sentido da presença do Homem - Deus, sublimadora por si mesma da ordem da Criação.
O fato mesmo de que se fez homem e viveu as etapas da vida de um homem é redenção, como nos atesta s. Leão Magno: “A humanidade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se a natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina... Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano sem diminuir o divino.” O início cronológico do evento, Cristo é o ponto inicial daquela obra de vida humano - histórica de Jesus Cristo, que ele executou por missão do Pai, para a redenção da humanidade e do mundo, e ao mesmo tempo, início da escatológica plenitude salvífica, a qual especialmente pelo envio do Espírito Santo, realiza a consumação do mundo.
Em Cristo pois, apareceu e se tornou definitivo o consumador “sim” de Deus Pai, e mediante suas palavras e ações, Deus torna-se particularmente visível como Pai cheio de misericórdia. Ele oferece o Reino que é salvação e se doa por amor.
 
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